cnn -02/09/2026 22:55
O ministro Alexandre de Moraes pediu vista em um julgamento de grande interesse do Banco Master em novembro de 2024, época em que sua mulher, Viviane Barci de Moraes, já tinha firmado contrato de R$ 131 milhões com a instituição financeira de Daniel Vorcaro.
O magistrado devolveu o caso para análise do plenário em
fevereiro deste ano, quando os pagamentos do ex-banqueiro à mulher do
magistrado já eram de conhecimento público.
A reportagem questionou o ministro se houve algum conflito
de interesses por ter julgado o caso, mas não obteve resposta.
Trata-se de uma disputa bilionária entre a União e empresas
sucroalcooleiras, que foram derrotadas em setembro de 2023 com o veto unânime
do Supremo Tribunal Federal (STF) ao pagamento antecipado de R$ 5 bilhões em
precatórios a uma empresa específica do setor.
Os advogados apresentaram recurso e, em 8 de novembro de
2024, o então presidente da corte, ministro Luís Roberto Barroso, votou para
manter a decisão do ano anterior. Moraes, então, pediu vista e devolveu o caso
para julgamento em fevereiro de 2026, quando todos os ministros se posicionaram
a favor da União contra o pagamento antecipado.
A previsão da Fazenda Nacional é que um entendimento em
sentido contrário abriria precedente para outras 26 companhias do setor
apresentarem o mesmo pleito à Justiça, o que poderia gerar um impacto superior
a R$ 100 bilhões aos cofres do governo federal.
Foi justamente sobre este processo, intitulado Suspensão de
Tutela Provisória 976, que o ministro André Mendonça afirma ter tratado no
encontro que teve com Daniel Vorcaro em março de 2024.
A controvérsia jurídica começou nos anos 1980 e discute se a
União deve ressarcir empresas do setor que alegam ter tido prejuízos
bilionários por um tabelamento de preços imposto à época pelo Instituto do
Açúcar e do Álcool (IAA), uma autarquia federal já extinta.
Há processos sobre o tema em curso no Judiciário há mais de
20 anos e o governo federal foi condenado em diversos processos a ressarcir as
perdas, que se transformaram em precatórios.
Em 2020, o Supremo uniformizou o entendimento sobre o tema e
decidiu que a União tem o dever de indenizar apenas as empresas que consigam
comprovar os danos sofridos pelas políticas de preço da IAA.
Depois disso, processos sobre o tema ficaram travados e
muitos dos precatórios, títulos que reconhecem a existência de uma dívida da
União e que geralmente demoram a ser pagos, foram revendidos a bancos a preços
menores, dentre eles o Master.
No andamento processual do caso no site do STF, consta a
informação de que em 4 de fevereiro de 2025 Moraes chegou a devolver a vista e
o caso a ser incluído na pauta do plenário virtual, mas um dia depois o ato foi
invalidado sob a justificativa de “lançamento indevido”.
O mesmo ocorreu em 14 de março do ano passado: aparece a
informação de que Moraes havia devolvido o caso para julgamento, mas há o
registro de que em 10 de fevereiro de 2026 o ato tratou-se de “lançamento
indevido”.
Nesse meio tempo, consta a informação de que o processo foi
incluído para apreciação pelo presidente em 29 de setembro de 2025, mas o caso
não chegou a ser analisado, o que só ocorreu a partir de 11 de fevereiro.
A aquisição de precatórios era uma das principais
estratégias de Vorcaro para inflar o balanço do Master e uma eventual onda de
pagamentos por ordem do STF desses títulos do setor sucroalcooleiro, que tinham
baixo valor de mercado, beneficiariam Vorcaro.
Na nota em que admite a reunião com Vorcaro, Mendonça não
cita Moraes, mas menciona que o caso estava paralisado por vista de um
ministro.
“Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de
Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do STF e que discutia
créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata
data da reunião, com pedido de vista de outro ministro”.