metropoles -01/06/2026 08:17
Um El Niño de intensidade moderada a forte pode afetar o Brasil
a partir do segundo semestre deste ano, aponta a Administração Oceânica e
Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA). A chegada do fenômeno causará
instabilidade e liga o alerta para eventos climáticos extremos.
O fenômeno tem sido chamado de Super El Niño e causado
preocupações Brasil afora.
O NOAA mostra que há 82% de chance de o El Niño chegar entre
maio e julho, e previsão de 96% para o evento se desenvolver até dezembro.
O Metrópoles conversou com especialistas para saber quais regiões
devem ser mais afetadas e qual será a intensidade do fenômeno.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno natural do Oceano Pacífico marcado
pelo aquecimento anômalo das águas devido ao enfraquecimento dos ventos
alísios.
Esse enfraquecimento altera a circulação atmosférica global
e mantém a temperatura elevada.
Provoca clima mais seco no sudeste da Ásia, Austrália, sul
da África e no norte e nordeste do Brasil.
Causa aumento de chuvas na África oriental, sul dos Estados
Unidos, Peru e Equador.
O Cemaden aponta que o El Niño 2026/2027 pode se tornar o
mais forte da história moderna
Segundo Estael Sias, mestre em Meteorologia pela
Universidade São Paulo (USP), o El Niño 2026/2027 pode começar em junho e será
diferente do fenômeno de 2023-2024. Os eventos extremos devem ocorrer
nas regiões Sul, Norte e Nordeste.
“Para o 2º semestre, os modelos estão colocando mais umidade
entre Mato Grosso do Sul e São Paulo, o que é diferente do padrão tradicional
do El Niño, indicando essa possibilidade de chuva acima da média nestes
estados. Já no Sul, teremos potencial de precipitações mais elevadas, com
frequentes alagamentos e risco de enchentes”, explica a meteorologista Estael
Sias.
impactos do el niño nas regiões do Brasil
O interior da região Norte e o Nordeste serão afetados
por ondas de calor e escassez severa da chuva. Conforme a
especialista, isso impacta os mananciais e bacias hidrográficas, prejudica a
agricultura, além de favorecer queimadas e incêndios.
Sul corre risco com El Niño
Eventos como tempestades, enchentes, chuvas
torrenciais podem afetar diversas cidades do Sul. Isso ocorre porque o El Niño
altera a circulação atmosférica e direciona correntes de umidade da Amazônia à
região.
A junção da umidade com frentes frias retidas no Sul gera
tempestades, inundações e enchentes na região. Em 2024, estes fatores
climáticos, somados às vulnerabilidades locais, contribuíram para uma tragédia histórica: as enchentes que atingiram o Rio Grande do
Sul.
“No Sul, onde o El Niño concentrará chuvas extremas,
sistemas de drenagem subdimensionados tendem a colapsar rapidamente, gerando
alagamentos recorrentes e extravasamento de esgoto. A malha rodoviária de Santa
Catarina e do Rio Grande do Sul tem dezenas de pontos críticos mapeados em
áreas de risco geológico”, avalia Júlio César da Silva, engenheiro ambiental e
professor da UERJ.
No entanto, Júlio destaca que a vulnerabilidade real de cada
região depende menos do fenômeno em si e mais das condições pré-existentes
de infraestrutura.
Norte e Nordeste têm “menor capacidade de resposta”
Para além das queimadas, a estiagem severa tem impacto
direto na infraestrutura básica e no abastecimento de água potável das regiões
Norte e Nordeste.
“O semiárido nordestino e a Amazônia ocidental combinam a
maior dependência de infraestrutura sensível ao clima com a menor capacidade
fiscal e institucional de resposta. A seca nessas regiões não rompe uma
adutora, ela simplesmente esvazia rios e açudes gradualmente, em um colapso
silencioso que só se torna visível quando a água já falta”, aponta o engenheiro
ambiental Júlio César.