metropoles -23/11/2025 15:41
As pandemias não são um fenômeno moderno, tampouco raro. A história registra ciclos repetidos em que microrganismos saltam de espécie, encontram um ambiente propício e se espalham antes que os sistemas de saúde consigam reagir. O avanço tecnológico reduziu algumas vulnerabilidades, mas ampliou outras: o mundo está mais conectado, mais urbano e mais sujeito a desequilíbrios climáticos que aceleram a circulação de vírus.
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam
que, mesmo que seja possível evitar que surtos locais ganhem proporções
globais, eliminar totalmente o risco é impossível. Os vírus evoluem rápido, adaptam-se a novos hospedeiros e
exploram falhas de vigilância. Por isso, quando a detecção ocorre tarde, a
transmissão supera as tentativas de contenção.
Por que as pandemias acontecem?
Os vírus acumulam mutações o tempo todo e muitas dessas
alterações passam despercebidas até que uma combinação específica permita ao
microrganismo se ajustar a um novo hospedeiro e encontrar condições para se
espalhar.
O processo faz parte da evolução natural desses patógenos e
ocorre tanto em vírus quanto em bactérias. A cada nova mutação, surgem chances
diferentes de adaptação, o que ajuda a explicar por que alguns surtos aparecem
sem aviso prévio.
A infectologista Giovanna Marssola, do Hospital Samaritano
Higienópolis, da Rede Américas, explica que o salto entre espécies depende de
fatores biológicos e também das condições do ambiente.
“Em muitos episódios, o vírus tenta se adaptar e não
consegue avançar, mas quando encontra um hospedeiro compatível e condições
favoráveis, a transmissão pode se estabelecer e ganhar velocidade”, afirma
Giovanna.
A forma como vivemos também interfere nesse movimento. A proximidade entre humanos e animais, motivada pela
expansão urbana e pelo avanço sobre áreas naturais, aumenta as chances de um
vírus ultrapassar essa barreira.
Atividades agropecuárias intensivas reforçam esse cenário,
já que grandes concentrações de animais criam condições que favorecem o
aparecimento e a transformação de microrganismos.
O deslocamento constante de pessoas entre cidades e países
completa esse conjunto de fatores. Mesmo surtos pequenos podem ganhar força de
forma rápida em um mundo onde viagens de distâncias longas são feitas em poucas
horas.
Urbanização e clima reforçam a vantagem dos vírus
A dinâmica das mutações e o salto entre espécies ganham
força porque encontram condições favoráveis fora do ambiente biológico. O
crescimento acelerado das cidades e a concentração de pessoas em áreas
reduzidas criam espaços onde a transmissão se instala com muito mais
facilidade.
A circulação de pessoas nos grandes centros, principalmente
em metrôs, ônibus e terminais, funciona como uma rede que amplia qualquer foco
inicial. Esse movimento se junta aos deslocamentos internacionais e encurta
distâncias que antes serviam como barreiras naturais para vírus e bactérias.
Assim, infecções que estariam restritas a regiões pequenas conseguem atravessar
fronteiras antes de serem detectadas.
“O deslocamento aéreo encurta o percurso de qualquer agente
infeccioso e transforma eventos locais em problemas globais em poucos dias. Sem
identificação precoce, a contenção rapidamente se torna limitada”, afirma o
infectologista Marcelo Neubauer, de São Paulo.
Outro fator é que as mudanças climáticas aumentam ainda mais
esse potencial. Frentes frias, maior umidade e mudanças bruscas de temperatura
favorecem a sobrevivência de vírus no ar, dando mais tempo para que encontrem
novos hospedeiros.
Desigualdade ainda molda as respostas globais
As condições que favorecem a disseminação dos vírus ganham
outra camada quando pensamos nas diferenças econômicas e estruturais entre os
países. Mesmo com avanços científicos, nem todas as regiões conseguem acessar
vacinas, medicamentos e testes no mesmo ritmo, o que cria uma defasagem difícil
de corrigir.
Essa distância se amplia com as limitações logísticas, falta
de insumos e infraestrutura insuficiente para distribuir doses ou realizar
diagnósticos de forma contínua. Enquanto algumas populações conseguem conter
surtos com rapidez, outras enfrentam atrasos que prolongam a circulação do
vírus.