r7 -22/04/2023 16:49
Depois de uma sexta-feira com frio intenso, especialmente em
São Paulo e Mato Grosso do Sul, o fim de semana não será diferente. Neste
sábado (22), por exemplo, as mínimas podem ficar abaixo de 10°C em várias cidades
do Sul e Sudeste.
Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), essa
massa de ar polar começa a perder força no domingo (23). Porém, antes de isso
acontecer, um velho mito já volta a circular: tomar vento gelado após um banho
quente pode causar PFP (paralisia facial periférica)?
A resposta para essa pergunta, com base nas evidências
científicas disponíveis, é simples: não.
"Esse mito transcende o tempo, mas na verdade não há
nenhuma relação de paralisia facial periférica com calor ou frio, nem com golpe
de ar", diz Arthur Menino Castilho, presidente da SBO (Sociedade
Brasileira de Otologia) e membro da Aborl-CCF (Associação Brasileira de
Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial).
Essa paralisia é um distúrbio que acomete o nervo facial,
mais precisamente o sétimo nervo craniano. Ele passa por um processo
inflamatório até que "pare de funcionar" ou funcione mal —
visualmente, fica "torto", segundo o especialista.
A paralisia de Bell, como também é conhecida, pode ocorrer
por várias causas; por exemplo, infecções virais, doenças autoimunes e
proliferativas, problemas oncológicos e traumas.
No caso das infecções virais, o vírus mais frequente é o da
herpes, o mesmo que causa a herpes labial e genital, mas também o herpes zoster
— responsável pela catapora e por quadros mais graves de PFP.
"Não sabemos por que algumas pessoas que têm o vírus da
herpes acabam tendo paralisia facial, porque esse vírus é contaminante e
praticamente todo mundo já teve contato com ele, mas é pequena a porcentagem
que vai ter paralisia facial. Não sabemos ao certo o que faz esse vírus se
reativar no nervo", afirma Castilho.
A única relação, acrescenta o médico, é que os vírus dessa
família preferem se replicar dentro do nervo, mas ainda há uma lacuna nos
dados.
De forma geral, a paralisia facial periférica é um quadro
súbito que evolui de três horas a 72 horas, mas pode haver alguns sinais que
antecedem a visível mudança no rosto.
"Os pacientes apresentam fraqueza, habitualmente, de um
dos lados da face. Além dessa fraqueza, pode haver também um desconforto,
geralmente na região da mastoide [localizado atrás das orelhas]. Outros
sintomas também podem existir", complementa Eduardo Uchôa, neurologista e
coordenador da regional centro-oeste da ABN (Academia Brasileira de
Neurologia).
A PFP enfraquece os nervos tanto do andar de cima da face
(dificuldade para fechar os olhos) quanto do de baixo (por exemplo, os da
boca).
Segundo Uchôa, geralmente, a recuperação dos pacientes varia
de algumas semanas a seis meses. Isso depende do tempo que a pessoa demorou
para procurar ajuda médica e do grau de gravidade da paralisia.
"Ranqueamos essa paralisia facial em uma escala que varia
de 1 a 6, em que 1 é normal e 6 é a paralisia completa. Se o paciente tem uma
paralisia grau 6, a chance de ele ter sequelas é muito grande. Mas a maioria
dos pacientes que têm paralisia de Bell não tem grau 6, mas sim 4 ou 3",
relata Castilho.
Tratamento
O primeiro passo do tratamento é identificar se a pessoa é
do grupo de risco ou não, já que diabéticos, gestantes (no terceiro trimestre
ou no puerpério) e pacientes que realizam sessões de quimioterapia e
radioterapia têm mais risco de desenvolver a PFP.
"Uma coisa que [também] vemos é que pessoas muito
estressadas, ou que estão passando por estresse muito intenso no trabalho, na
vida pessoal ou [no campo] emocional, acabam tendo também uma imunossupressão,
que pode reativar esse vírus", alega Castilho.
Posteriormente, os especialistas analisam todas as
possibilidades de origem.
"O diagnóstico é de exclusão: vamos excluindo as causas
que conhecemos e, quando não sobra mais nada, acreditamos que pode ser a
paralisia facial de Bell — possivelmente viral e mais comum", explica o
especialista.
Uma vez encontrada a causa, o tratamento é feito com
corticoide (para reduzir o inchaço do nervo) e antivirais (tratar o vírus).
Curada a infecção que causou a paralisia, ela passa. Porém, alguns casos ainda
precisam de sessões de fisioterapia.
É importante ressaltar que o direcionamento rápido ao
atendimento especializado é essencial em todos os casos, para evitar futuros
problemas.
"Sabemos que os pacientes que conseguem ter acesso, por
exemplo, à terapia com corticoide podem evitar algumas sequelas", relata
Uchôa.
Castilho avisa que, apesar de "na maior parte das vezes
não haver dano permanente, ele pode ocorrer".
Diferenças entre paralisia de Bell e paralisia facial
central
A paralisia de Bell pode ser confundida com a paralisia
facial central, que decorre, principalmente, de um AVC (acidente vascular
cerebral).
"As lesões centrais causadas, por exemplo, por AVC,
tumor ou outro tipo de lesão que afete o parênquima cerebral (tecido do
cérebro) vão se manifestar, geralmente, só com comprometimento do andar
inferior — só tem um desvio da rima, ou então quando você vê o paciente
sorrindo [com] aquela alteração", explica Uchôa.
Além dessa diferenciação, na paralisia central não é uma
inflamação no nervo que desencadeia as alterações faciais, mas sim uma lesão
dos neurônios responsáveis pelos movimentos do rosto.