r7 -09/03/2023 22:05
Uma mulher congolesa de 50 anos morreu após passar nove anos
com um feto calcificado em seu abdômen, classificado como litopedia. O caso foi
registrado em um estudo publicado nesta terça-feira (7), no BMC Women's
Health.
Segundo a publicação, a congolesa buscou auxílio médico
cerca de 30 dias após chegar aos Estados Unidos, reclamando de dores
abdominais, indigestão crônica e sensação de barulhos estranhos no estômago
após as refeições, durante muitos anos.
A revisão dos registros de avaliação de autorização de
saúde obrigatórios, concluídos seis meses antes de sua chegada ao país. Seu
histórico apresentava o diagnóstico de “gravidez abdominal calcificada e
hipertensão essencial”, e os testes alegaram que a idade gestacional era de 28
semanas, quando ocorreu a morte do feto.
Conforme histórico fornecido pela paciente, ela já havia
passado por oito partos vaginais, sendo que três das crianças morreram logo
após o nascimento. Na nona gestação, houve um aborto espontâneo, porém, sem a
excreção do material fetal, resultando em uma grande massa abdominal
calcificada.
De acordo com um estudo publicado na Revista Brasileira de
Ginecologia e Obstetrícia, em 2019, a litopedia é um tipo raro de gravidez
ectópica, e ocorre quando o feto de uma gravidez abdominal não reconhecida
morre e se calcifica. O "bebê de pedra" resultante pode não ser
detectado por décadas, e pode causar complicações futuras. A litopedia é um
evento muito raro que ocorre em 0,0054% de todas as gestações. Cerca de 1,5 a
1,8% dos bebês abdominais se tornam litopédios.
No exame físico, os médicos puderam constatar uma massa
firme e móvel na parte inferior do abdômen, medindo aproximadamente 15cm x
20cm, sem sensibilidade à palpação. Questionada sobre o conhecimento do quadro,
a mulher relatou que, durante a gestação, notou diminuição do movimento fetal.
Ao buscar auxílio médico, ela foi informada sobre a falta de
batimentos cardíacos, indicando a morte do feto. A paciente foi instruída a ir
para casa e tentar “parir” o feto e retornar em duas semanas se nada
acontecesse espontaneamente. Ao retornar após a data, conforme orientada, foi
acusada de “má conduta”, “uso de drogas” e “matar o bebê”.
Embora o médico, à época, tenha recomendado ações de remoção
do feto, a mulher não se sentiu confortável a menter os procedimentos, devido
aos tratamentos recebidos previamente, apenas retornando à clínica para a
realização da autorização de saúde obrigatória para partir para os Estados
Unidos.
Uma semana após sua consulta inicial em solo
norte-americano, a refugiada se apresentou no departamento de emergência para
avaliação de náuseas e vômitos intratáveis. Uma radiografia abdominal mostrou
esqueleto fetal e padrão inespecífico de gases intestinais com leve distensão
intestinal, além de obstrução local. Ela foi internada durante a noite para
observação clínica.
Apesar de estar sendo acompanhada, por medo do hospital, ela
acabou recusando a ingestão dos medicamentos orais. Quando aconselhada sobre a
retirada do feto, calcificado, a paciente se recusou, e teria alegado avisar
quando estivesse pronta.
A recusa pelo atendimento médico, assim como a desnutrição,
acompanhada da obstrução intestinal, levou a paciente à morte 14 meses após o
início dos auxílios prestados.